A METAMORFOSE DO LEONÍSMO
ATRAVÉS DA SUA EXISTÊNCIA
PDG MJF ANTONIO DOMINGOS
ANDRIANI
A história do Lions Internacional é
uma crônica de adaptação humanitária.
Desde a sua fundação, em Chicago, nos Estados Unidos, a nossa entidade
migrou de um modelo focado em interesses comerciais e networking de
negócios para se consolidar como a maior organização de clubes de serviço do
mundo. Vou procurar, a seguir, descrever,
resumidamente, as principais fases, transformações estruturais e a evolução
filosófica do leonismo ao longo de mais de um século de existência.
No
início do século XX os Estados Unidos vivenciavam a proliferação de “clubes de
negócios”, circuitos fechados de empresários focados no benefício financeiro
mútuo.
Uma
assembleia constituinte realizada no ano de 1917 fundou o Lions. Contudo, a verdadeira metamorfose ideológica
ocorreu na Convenção realizada em Dallas, no Texas, em outubro daquele mesmo
ano. Naquela ocasião, foram aprovados os
Objetivos do Leonismo e o Código de Ética.
Este documento trouxe uma cláusula revolucionária para a época: nenhum
clube teria como objetivo o enriquecimento financeiro de seus membros. Esse corte umbilical com o corporativismo
converteu o Lions em uma instituição puramente filantrópica.
Na
sequência, a internacionalização do movimento impôs a necessidade de uma
identidade global e maleável a diferentes culturas:
·
1920: A fundação do Clube de Windsor,
em Ontário, no Canadá, internacionalizou nossa Associação.
·
1925: Durante a Convenção de Ohio,
Helen Keller desafiou os Leões a se tornarem “Cavaleiros dos cegos na
cruzada contra a escuridão”. Este
evento alterou permanentemente o foco central de serviços da nossa organização,
elegendo a visão como a bandeira mestre do leonismo.
·
1926: A expansão da Associação
chegou à América Latina, através de Cuba.
E na década de 1950 espalhou-se de forma robusta pela América do Sul,
com forte penetração no Brasil (o primeiro clube brasileiro foi fundado no Rio
de Janeiro, em 1952, por Armando Fajardo).
Durante a Segunda Guerra
Mundial, o Lions demonstrou alto valor geopolítico. Seus membros atuaram fortemente na
assistência civil e no suporte a refugiados.
O prestígio acumulado fez com que o Lions Internacional fosse convidado,
em 1945, a ajudar a redigir a seção de Organizações Não Governamentais (ONGs)
da Carta das Nações Unidas (ONU), mantendo até hoje o status consultivo junto
àquela instituição.
Conforme
nossa organização crescia em número de associados, as demandas comunitárias
exigiam um braço financeiro robusto que ultrapassasse as mensalidades
locais. Em 1968, foi criada a Fundação
de Lions Clubs International (LCIF).
A
metamorfose aqui foi estrutural. A LCIF
permitiu centralizar doações multimilionárias e canalizá-las para catástrofes
humanitárias, campanhas de vacinação em massa e projetos de estruturas médicas
de grande porte. A fundação transformou
o Lions de uma rede de clubes de ajuda mútua local em um player de peso
no cenário do desenvolvimento socioeconômico global, estabelecendo parcerias
com entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Fundação Bill &
Melinda Gates (com destaque para a iniciativa de erradicação do sarampo).
Por
sete décadas o leonismo foi uma organização exclusivamente masculina. As mulheres atuavam nos bastidores ou em
clubes auxiliares conhecidos como “Lionesses” (Domadoras, no Brasil).
Em
1987, a Convenção Internacional aprovou a admissão de mulheres como associadas
plenas do Lions. Essa transição demográfica
oxigenou a nossa instituição e alterou a dinâmica de liderança. O ápice dessa evolução ocorreu na Convenção
de Las Vegas, em 2018, quando Gudrum Yngvadottir, da Islândia, tomou posse como
a primeira Presidente Internacional da história da Associação, seguida
posteriormente por outras lideranças femininas de destaque, como Patti Hill.
A
transição para o século XXI exigiu que o Lions modernizasse sua plataforma de
metas. O assistencialismo pontual deu
lugar a metas mensuráveis e alinhadas aos Objetivos do Desenvolvimento
Sustentável da ONU. Nossa organização
unificou forças em torno das suas principais Causas Globais:
·
Visão: Continuidade do combate à
cegueira evitável (Programa SightFirst);
·
Diabetes: Conscientização, triagem
e apoio a portadores de uma das doenças crônicas que mais crescem no mundo.
·
Fome: Distribuição de alimentos e
programas de segurança alimentar em comunidades vulneráveis.
·
Meio ambiente: Plantio de árvores,
preservação de recursos hídricos e reciclagem.
·
Câncer infantil: Suporte
psicossocial e financeiro a crianças em tratamento e suas famílias.
Esta transição para causas
específicas permitiu uma comunicação mais clara com as gerações mais jovens e
deu foco estratégico às ações locais.
O
leonismo enfrenta atualmente o desafio de se manter relevante na era digital e
atrair novas gerações. A resposta da
nossa Associação tem sido pautada em dois pilares:
·
Tecnologia: A transição dos
antigos livros de registro e relatórios em papel para ecossistemas digitais,
como o portal MyLions. Esse aplicativo e
plataforma unificada permitem que Leões do mundo inteiro reportem suas horas de
serviço, compartilhem projetos e meçam o impacto real em tempo real.
·
Novos modelos de Clubes: Diante da
escassez de tempo das novas gerações, o Lions flexibilizou sua estrutura
rígida. Surgiram os clubes virtuais,
clubes universitários e clubes de interesse especial (centrados em uma
atividade comum, como maratonistas ou ecologistas). Os Distritos investem fortemente nos Clubes
LEO, o braço juvenil da nossa organização, que prepara lideranças jovens desde
a adolescência.
A metamorfose do leonismo
demonstra uma transição adaptativa contínua.
Nossa organização que nasceu para conectar comerciantes em Chicago
converteu-se em uma força humanitária global com mais de 1,4 milhão de associados
presentes em mais de 200 países e áreas geográficas. Ao preservar o seu lema original adotado em
1954 (“Nós Servimos”) e, simultaneamente, revolucionar suas políticas de
gênero, ferramentas tecnológicas e causas humanitárias, o Lions Internacional
prova que a tradição e a modernidade podem coexistir no voluntariado
internacional.
Um
fraterno abraço leonístico a todas e a todos.










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